Aventura na ponta dos pés
por: Filipe Gonçalves
A manhã calma daquela quinta-feira foi propícia para a prática de 'canyoning'. É uma actividade que está a cativar vários madeirenses e também turistas. E nós fomos experimentá-la.
O objectivo é o de percorrer uma determinada distância, sempre pelo leito de uma ribeira tendo como orientação um percurso de água.
O passeio pelo interior da natureza passa por mergulhar em águas frescas, ao lado de trutas; inclui descidas em rappel com 15 a 20 metros; faz parte também saltar para pequenos lagos.
A aventura e a descoberta deste desporto começou bem cedo, por volta das 9h30, para um jornalista, duas guias turísticas (Neuza e Mara) e o formador Nuno Freitas.
O percurso escolhido foi o mais simples, mas com uma beleza indescritível. A descida da 'Ribeira das Cales' iniciou-se junto ao portão Norte do Chão da Lagoa e terminou junto ao Centro de Recepção do Parque Ecológico do Funchal.
O primeiro contacto com a actividade fez-se ao percorrer um trilho com muita vegetação. São os pés que comandam. É fundamental sentir firmeza no solo que se está a pisar. Caso contrário as escorregadelas são inevitáveis.
Mara e Neuza sabem de cor o nome de todas as plantas. São guias que mostram aos turistas as belezas da nossa terra.
Mara é também praticante assídua do 'Canyoning' ou 'Aguagens' como Nuno Freitas quer que a actividade passa a ser denominada. São cerca de 30 os praticantes do 'canyoning' na Madeira, mas pode haver mais, assegura o jovem Nuno, com formação em 'canyoning', em auto-resgate em 'canyoning' e detentor do Curso de Socorrismo FOR pela Cruz Vermelha Portuguesa. As questões de segurança estavam então salvaguardadas.
Para a realização da actividade é necessário pedir permissão à Direcção Regional de Florestas, desde que o percurso seja efectuado num perímetro florestal.
Nuno Freitas é um amante da actividade e faz percursos de canyoning em regime de freelance para um empresa de desportos de aventura.
Os quatro aventureiros entraram logo no espírito da actividade: atravessar ribeiras devidamente equipadas, descer algumas rochas através de rappel, e por fim, utilizar a energia que restava para saltar para as lagoas.
Em determinadas zonas do 'canyoning' pode-se nadar a 1.400 metros de altitude com a temperatura da água a rondar os 13 graus. Mas o fato completo em neoperene (ver infográfico) protege-nos do frio.
Foram necessárias cerca de 3 horas para percorrermos a totalidade da 'Ribeira das Cales'. No final: o desânimo. "Já terminou", reclamamos.
Dá vontade de repetir a experiência. Apesar do esforço que é necessário imprimir durante a descida em rappel, o corpo parece ter gostado e não reclama. É através do blog www.canyoningmadeira.blogspot.com, criado por Nuno Freitas, que se pode aceder a toda a informação sobre os itinerários dos 'canyoning' que existem na ilha da Madeira. Há também um DVD não comercial que inclui fotos e vídeos de diversos itinerários de 'canyoning'. Nuno Freitas até já fez questão de oferecer um exemplar ao presidente do Governo Regional.
É no final da década de 80 que a actividade surge na Região pelas mãos de um grupo de franceses liderado por Fréderic Feu da empresa de turismo de aventura 'Atalante'. Nessa altura, o grupo equipou a ribeira do Ribeiro Frio e a Ribeira das Cales. Nos anos 90 , a actividade é praticada por madeirenses que também abrem outros itinerários.
Quanto ao equipamento das ribeiras é de destacar o trabalho realizado pelo francês Antoine Florin que desde a primeira visita à Região, em 2000 equipou vários itinerários, contabilizando até à data cerca de 37 canyons que este ano deram origem a um livro de sua autoria: 'Canyons de Madère'.
crónica: Ao sabor da natureza...
O ar puro que se respira em plena Ribeira das Cales faz esquecer o 'stress' diário a que está submetido um jornalista. Mas a nossa profissão tem muitas regalias.
Além do contacto privilegiado com a informação há também as experiências que nos são sugeridas. Praticar canyoning nunca fez parte dos meus planos. Até um dia... O medo ou receio são palavras que nunca fizeram parte do meu conjunto lexical. E foi de espírito aberto que me dediquei a experimentar o canyoning. O mesmo com que foi recebido pelo Nuno, pela Mara e a Neuza.
Além do convívio que se proporciona enquanto se desce as águas limpas e frescas da Ribeira das Cales, há todo um conjunto de dicas importantes que me foram apresentadas. Mas a melhor parte é a descida em 'rappel'. Acabamos por fazer parte da água que cai em cascata. Um banho que nos rejuvenesce e faz esquecer o stress da nossa profissão. Aconselho a todos (desde que saibam nadar e não tenham vertigens) estas três horas de plena aventura, recheada de emoção e com um contacto privilegiado com o melhor de uma Madeira ainda por descobrir.
Equipamentos o que usar para a prática
Capacete - Peça essencial e de uso obrigatório: a regra é a de nunca tirar da cabeça. Protege contra a queda de pedras e choques contra a parede.
Fato completo em Neoperene - Ajuda a manter a temperatura do corpo. Há uma dica importante a ser seguida: sempre que entrar água nunca deve ser retirada.
Arnês - Utilizado na descida em 'rappel', terá de ter também o mosquetão e o 'oito'.
Boião - Fundamental para colocar a máquina fotográfica, porta-moedas e telemóveis.
Sapatilhas - Ter em atenção o tipo de calçado usado: terá de ser confortável.
Números
30 - Alguns dos praticantes estão ligados ao 'Clube Naval do Seixal', outros ao 'Clube Aventura da Madeira' e outros não integram qualquer clube como é o caso de Nuno Freitas.
2 - Segundo o sítio oficial do Turismo há duas empresas através da qual é possível praticar canyoning: 'Terras de Aventura' e a 'Ventura do Mar'.
60€ - É o preço médio que custa praticar a actividade. O valor já inclui todo o material que é fornecido pela empresa.
16 - O praticante tem acima dos 16 anos, desde que sejam acompanhado pelos pais ou com a autorização.
Gonçalves F. (2008, 10 de Agosto) Aventura na ponta dos pés, Diário de Noticias pp. 4-5.
Fotos:



Fotos de: Nuno Freitas